Marcámos para as 13h, como sempre ela pediu-me para ser pontual e eu na minha eterna ingenuidade continuo a sair de casa apenas 30 min antes da hora marcada. Já estou atrasado, atensão arterial aumenta um pouco, os suores frios preenchem-me a testa, os outros condutores parecem congeminar um plano cuidadosamente, quase a uma escala universal, para que eu não consiga amenizar o atraso. Como se isso fosse possível... se já estou atrasado, não há volta a dar!
Finalmente chego a casa dela, corro para a cumprimentar. O seu olhar revela um misto de indiferença e lamento. Não era bem este tipo de olhar que esperava encontrar, mas dentro do que era espectável, também não é bom sinal. Beijamo-nos, sinto um arrepio gélido como se tivesse acabado de trincar um gelado de água, isto é deveras estranho.
Já fazia alguns dias que não nos víamos, eu estava com alguma ansiedade por sentir novamente o calor dos seus lábios, o aperto forte com que costumava presentear-me e as promessas segredadas ao ouvido. Mas algo nela estava diferente. O olhar. O beijo. A sua mão suada e pouco à vontade ao sentir o toque da minha, parecia que se estranhavam, como se a sua pele rejeita-se esse enxerto que eu teimava em lhe colocar por entre os dedos.
Fomos almoçar a um dos seus locais de eleição, eu também gostava, mas não com o mesmo grau de entusiasmo. Começámos a conversar, temas banais de um casal que já se conhece há algum tempo e relata ao seu par as novidades que lhe possam interessar. Foi então que surgiu o "precisava mesmo de falar contigo", num dia normal seria mais uma coisa banal, um problema que necessita-se da atenção mais cuidada do "namorado", mas nada de especial, no entanto hoje o dia não me parecia nada normal.
Sentia-me como que no fundo de um poço, com os ouvidos meio submersos, o som que ela emitia chegava-me abafado, quase ináudivel, não conseguia discernir com exactidão toda a informação que ela me queria passar. Não conseguia... ou não queria. As minhas mão já tinham largado as suas. Porquê?!
O meu olhar deambulava pela sala, observava o prato de um casal à direita, observava um jovem executivo a atravessar a rua ainda com o semáforo vermelho e olhava novamente para as minhas mãos, inquietas, a mexer nos talheres sem qualquer objectivo. Não conseguia suster a perna esquerda, constantemente a subir e descer apoiada apenas nos dedos e na parte dianteira do peito do pé. Porquê?!
Ela esforçava-se por segurar as minhas mãos, por me fazer olhar para ela, para que dissesse alguma coisa. Porquê?!
O nosso pedido chegou, os talheres quebraram o silêncio que subitamente se havia instalado, no entanto o som parecia algo amorfo, como se estivesse enclausurado num frasco fechado sobre o efeito de vácuo. O meu olhar, vidrado, contemplava o prato. Cada pedaço do bife, com o meu molhe preferido, parecia um bocado de serradura seca, sem sabor, ou de sabor desagradável. Porquê?!
Quando acabámos, os nossos olhares voltaram a reencontrar-se, o seu parecia agora um misto de lamento e de suplica, como que a pedir-me "fala! diz qualquer coisa!". Não falei. não sabia o que... Porquê?!
Despedimo-nos como dois conhecidos que haviam esgotado o parco tema de conversa. A viagem de volta a casa pareceu-me nem ter ocorrido, totalmente absorto em pensamentos dou por mim a ver-me ao espelho. Pareço mais velho, stressado e perdido. O meu olhar apenas deixa transparecer uma sensação de vazio. Porquê?!
Porque gosto eu tanto desse teu travo... amargo... a tudo o que me é mortal?!